ARIPUANÃ, Sábado, 23/06/2018 -

NOTÍCIA

Contei 4 vagões por cima de mim, diz mulher empurrada no metrô

‘Assisti ao vídeo várias vezes e, se não fosse comigo, eu não acreditaria que a pessoa sobreviveu’, diz a atendente de fast-food Jussara Araújo de Souza

Data: Quarta-feira, 10/01/2018 00:00
Fonte: Por Fernanda Bassette/ Veja.Abril

 

 

 

Um dia após ter sido empurrada por um desconhecido nos trilhos do metrô Conceição, da Linha 1-Azul, na zona sul de São Paulo, Jussara Araújo de Souza, de 23 anos, atendente de uma rede de fast-food, diz ainda não acreditar que sobreviveu ao acidente sem se machucar com gravidade – tem um ferimento na perna e alguns hematomas. “Até agora estou abalada e não acredito no que aconteceu. Assisti ao vídeo várias vezes e, se não fosse comigo, eu não acreditaria que a pessoa sobreviveu. Com certeza eu nasci de novo.”

 

Casada e mãe de três meninos – um de 6 anos, um de 4 anos e outro de 11 meses ­-, Jussara conta que estava indo para o trabalho na tarde de terça-feira, 9, quando foi empurrada pelo auxiliar de limpeza Sebastião José da Silva, de 55 anos, que foi preso em flagrante. Ela pegaria o metrô e seguiria até a Sé, na região central, onde faria a baldeação para a estação Marechal Deodoro, da Linha 3-Vermelha, na zona oeste da cidade, próxima ao seu serviço. Ela faz esse trajeto diariamente há seis meses e nunca pensou que algo do tipo pudesse acontecer.

 

No momento do empurrão, Jussara não estava perto da linha de segurança da plataforma (uma faixa amarela no chão que delimita o quanto o usuário pode se aproximar da vala dos trilhos) – ela estava mais para os fundos, distraída, conversando pelo WhatsApp. Não notou a presença de Silva, que a empurrou exatamente quando o trem se aproximava. Por ter caído em um vão, ela conseguiu sair quase ilesa, apesar de ter ficado sob o veículo. “Não percebi nada. Quando me dei conta, já estava no chão, lá embaixo. Não tive tempo de me mexer, foram frações de segundos. Só consegui olhar para cima e contei quatro vagões passando por mim até o trem parar”, lembra.

 

Jussara diz que, nesse momento, achou que iria morrer. E que sentia muita dor na perna direita – com a queda, sofreu um rasgo na altura da panturrilha, onde levou 30 pontos – e nas mãos. “Eu só pensava nos meus três filhos e no meu marido. Comecei a gritar por socorro e chorava muito. Ouvi as pessoas me pedirem calma, para eu ficar quieta e não me mexer, que logo iriam me tirar dali”, diz.

 

Não percebi nada. Quando me dei conta, já estava no chão, lá embaixo. Não tive tempo de me mexer, foram frações de segundos. Só consegui olhar para cima e contei quatro vagões passando por mim até o trem parar

 

O trem saiu da plataforma e Jussara foi imediatamente resgatada e imobilizada por quatro bombeiros. Foi levada ao Hospital Municipal Arthur Ribeiro de Saboya, no Jabaquara (zona sul) e recebeu alta por volta das 21h, depois de fazer todos os exames e receber os pontos na perna. Nesta quarta, ela vai  à delegacia realizar exame de corpo de delito e ao seu trabalho entregar a documentação necessária para a licença médica.

 

 

A jovem disse que não conhece o homem que a empurrou. Assustada, diz que ainda não parou para pensar no que sente pelo agressor e se o perdoa pelo ato. “Não consigo pensar nisso ainda. Ainda é tudo muito recente”, disse.

 

Na delegacia, o autor do ataque disse, segundo a polícia, que “ouviu vozes” orientando-o a empurrar Jussara para os trilhos.


Jussara nasceu em São Paulo e usa o metrô como meio de transporte desde criança. Ela, o marido e os filhos moram em Americanópolis, na zona sul da cidade. A partir de agora, não sabe mais como será sua rotina. “Eu dependo do metrô para ir trabalhar e para me deslocar em São Paulo. Mas estou com muito medo. Hoje vou à delegacia e meu marido vai comigo, não vou conseguir andar de metrô sozinha”, afirmou.

 

Nos próximos dias, Jussara só pensa em descansar para tentar esquecer o que houve e ficar perto dos filhos. Ela, que nasceu na véspera de Natal, diz que agora vai comemorar dois aniversários: 24 de dezembro e 9 de janeiro. “Estou viva por um milagre.”