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Odebrecht ordenou que setor de propina saísse 'imediatamente' do país após Lava Jato, diz delator

Fernando Migliaccio, que trabalhou no setor de propinas da empreiteira, disse que empresa custeou mudança de funcionários; ordem veio 4 meses após início das investigações, afirmou.

17/05/2017
Fonte: Globo.com

O ex-diretor da Odebrecht Fernando Migliaccio afirmou em depoimento de delação premiada que, após o início da Operação Lava Jato, o então presidente da empreiteira Marcelo Odebrecht ordenou que alguns executivos saíssem "imediatamente" do Brasil. Ele disse que a empresa custeou a mudança de quem seguisse a determinação.

 

O conteúdo da delação premiada de Migliaccio foi tornado público nesta terça-feira (16) pelo Supremo Tribunal Federal, depois que o ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no STF, determinou a retirada do sigilo.

 

De acordo com a delação do ex-diretor, pouco antes de julho de 2014, Marcelo Odebrecht procurou Setor de Operações Estruturadas para determinar que todos os funcionários do departamento saíssem do Brasil.

 

Na reunião, segundo o delator, estavam presentes, além dele e de Marcelo Odebrecht, o então coordenador do departamento de propinas Hilberto Mascarenhas e outros executivos da empreiteira.

 

No caso de Migliaccio e Mascarenhas, a determinação era para que os dois deixassem o país "imediatamente".

 

"Em meados de 2014, pouco antes de julho, houve a decisão definitiva de Marcelo Odebrecht para que todas as pessoas envolvidas no Setor de Operações Estruturadas saíssem do Brasil; que a determinação para que o depoente saísse imediatamente do Brasil foi dada diretamente por Marcelo Odebrecht, em reunião na qual estavam presentes Marcelo Odebrecht, o depoente [Fernando Migliaccio], Hilberto Silva [Mascarenhas] e outros executívos que não tinham relação com o Setor de Operações Estruturadas; que, nessa reunião, Marcelo determinou que Hilberto Silva e o depoente saíssem imediatamente do Brasil", diz trecho do termo de delação do ex-executivo.

 

Ainda segundo Migliaccio, a empresa auxiliaria financeiramente a saída do país de quem aceitasse a proposta. "O auxílio financeiro compreendeu desde a obtenção do visto até o pagamento de despesas de moradía e permanência no exterior", diz outro trecho. Ele afirmou que a empresa chegou a pagar um imóvel nos Estados Unidos para um funcionário.

 

Migliaccio afirma que decidiu ir para a República Dominicana e que sua família se mudou para Miami, nos Estados Unidos. Poucos meses depois, o ex-executivo da Odebrecht contou que conseguiu um visto de trabalho norte-americano e que se mudou definitivamente para Miami em outubro de 2014.

 

Na delação premiada, Odebrecht disse ter repassado a orientação para que Hilberto e a equipe dele trabalhassem em outro país sem ter "medo" de o computador, por exemplo, ser monitorado.

 

Pagamentos

Na delação, Fernando Migliaccio relatou que mesmo após a mudança de diversos funcionários para o exterior, o setor de propinas continuou realizando pagamentos "paralelos".

 

"Independentemente das alocações geográficas dos envolvidos, o Setor de Operações Estruturadas continuou a funcionar normalmente, continuando-se os pagamentos; que durante o ano de 2015 houve uma diminuição na demanda de pagamentos pelo Setor de Operações Estruturadas", relata na delação.

 

No depoimento, o ex-diretor disse que os pagamentos só pararam com a prisão de Marcelo Odebrecht. A ordem veio de Hilberto Mascarenhas, relatou.

 

Antes do fechamento total do departamento, Migliaccio afirmou que a orientação era para que fossem feitos pagamentos a advogados e empresas que cuidavam das offshores da empresa, a doleiros responsáveis pelas transações ilícitas e a funcionários terceirizados.

 

Após os pagamentos, afirmou, o saldo restante nas contas mantidas no exterior deveriam ser devolvidos à Odebrecht.

 

Contratos fictícios

Para que o dinheiro fosse recuperado, o delator afirma que foi montado um esquema para justificar a transferência dos valores do exterior para o Brasil.

 

Migliaccio contou que um funcionário da Odebrecht, elaborou um contrato fictício para realizar a operação. "Esse mesmo contrato foi utilizado para justificar a transferência dos recursos depositados em vários bancos, sendo que o contrato era apresentado para o setor de compliance dos bancos", narrou.

 

De acordo com o ex-diretor da empreiteira, com a operação foi possível recuperar para a Odebrecht aproximadamente US$ 25 milhões, principalmente de bancos da Áustria e de Antígua.

 

Ele afirmou ainda que não conseguiu recuperar o saldo em diversas contas, que, segundo ele, começaram a ser bloqueadas. Migliaccio afirma que foram bloqueadas contas na Suíça e em Portugal.

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